rise up this mornin'

ele tinha a boca fechada e as asas eretas, num vôo exibido. o público contemplava aquele bicho escondido da mira dos olhos - tinham que erguer o queixo e deixar o horizonte pra baixo, olhar o infinito sobre as suas cabeças. fossem agora lembrar do tucano, diriam das cores improváveis do seu bico comprido.

ela fechava os olhos e não esquecia do seu corpo negro, em alto relevo, efeito cicatriz. o luto preenchia as partes daquele voador e era tudo o que ela entendia.

fechava os olhos e não esquecia.

júlia aissa

ela era duas vezes uma só. se saía ou se voltava, se estendia o seu vigor ou se sentava - era o dia todo feito a madrugada: aquele desespero lento. a sua calma martela o teto de zinco, a sua unha enferrujada, a sua pata malcriada. deixa o rastro de quem não sabe de nada, aquela sábia. ela era mesmo duas vezes uma e só, a solidão compartilhada, feito um copo de cachaça. ela era duas vezes uma só e sem ressaca: a júlia e a aissa.

biutiful

ele tem febre nos olhos - ela concluiu depois de observar mais uma vez o sujeito no canto do bar. seu piscar involuntário era como o intervalo escuro de uma sirene em ação. as mulheres hipnotizadas - ela, principalmente. a febre incurável daqueles olhos acendia o bar. uma febre antiga, num corpo imaturo.

ela olhou sem desvios.

lock, stock and two smoking barrels

ele engatilhou o cano entre os olhos dela:
- se for embora, atiro.
ela engoliu a saliva, apertou o peito com ar e soltou:
- eu estou indo. você decide de quem vai ser a culpa.

fecharam os olhos e se moveram em seus motivos.

come away with me

ela precisa deixá-lo ir, ele comprou suas passagens. o cara chorou de dentro do ônibus a despedida, ela não deixa a estação. precisa deixá-lo ir, as lágrimas caíram todas, o tempo passou, o cara está com sede atrás da janela, entediado.

ela solta o freio dos pulmões e o ônibus anda lentamente a sua partida. perder não é um truque do próximo vencedor, não é.

e me beija com a boca de hortelã

os caras da quadra brasil fazem barulho enquanto molho braço e barriga preparando a saia limpa de amanhã. imagino quantas pernas pr'aquele som desordenado e transpiro feito eles, na beira do tanque. os caras da quadra brasil me espantam de repente com um grito único da sua glória e eu sei que é só a metade da potência - a outra explode mais tarde, num espanto empatado. os caras da quadra brasil ganham volume em mim. olho pra água caindo e vejo aqueles meninos dançando pelo cimento colorido.

o cheiro é amaciante.

very superstitious, writing's on the wall

decidiu durante a festa, antes do bolo. a mulher sábia pediu que ela estendesse o braço e abrisse a sua mão - fosse ler as linhas todas. em volta já sabiam cada uma o seu devir, fosse ela faltar com a tradição criada ali? fosse. enrolou os dedos com precisão e disse primeiro bem debaixo, depois de cima da sua própria altura: se tem aqui um mapa, faço nele minha lei, escolho a interpretação.

sentiu cócega nas palmas antes de soprar as velas.

I'd rather go blind

tinha pouco tempo pra tirar os óculos - sabia da sua falta de habilidade com o perdão, se conhecia. fossem entrar pela porta do bar (o casalzinho), tinha pouco tempo pra tirar os óculos, já sabia, o coração não sente. agora entendia o porquê da miopia. só via bem de perto e bem de perto nada tinha, o chão. melhor assim.

os olhos alcançavam o seu copo de bebida.

I used to shoot you down

ela chegava à queima roupa, babe, bang bang: munição importada da fronteira amarillo-blues. agora falhou o gatilho, entrou pedra na bota, fogo sem caixa postal. explode nonada seu chocalho todo, suada, falta às aulas de interrupção. se mira, se atira - é sem dobrar os dedos pra não causar evidência, você sabe.

o oeste é o novo, mas não tem alvo. o sol ainda queima à contraluz. e como arde.

before sunset

cantava um falsete de nina enquanto o leite esquentava no fogão. seus pés estavam fora de época: fossem mais pra esquerda alcançariam o sol, mas parados bem ali...

ouvia a agitação do líquido na panela, não podia alegar inocência ao derramado - por isso não chorava. cantava um falsete de nina. I put a spell on you...

você foi a gota d'água

era como efeito sísmico. fosse passar perto, o fundo aflorava a pele, feito submarino. transbordava as cavidades: chorava feito um tango, ranho, a boca salivava um baita de desejo, intimidade preparada, pele suada feito sereia.  

não haveria um dia depois do reencontro. por isso se continha, desidratando. 

nosso crime não compensa

...
ele: já sei como se sente, li seu texto.
ela: e o que achou?
pausa.
ele: você foi cruel comigo.
pausa.
ela: mas... tava bem escrito?

antes que a terra nos coma

constrangidos com a pouca intimidade e um certo interesse, se perdiam sempre um do outro no primeiro oi. eram, os dois, do tipo que reage bem a algum estímulo. não sabiam cutucar ao vivo, em causa própria. foi com a reação ao nada do outro que olhavam pro lado e pisavam pra trás. nesse caminho contínuo se perderam de vista. e por que mesmo se encontraram algum dia?  a rejeição nublava seus desejos.

quem sabe batem de costas depois da volta ao mundo. depois que o mundo der mais impulso aos seus umbigos.

i´m your black tie

ele engravatou seu espírito na primeira mulher que julgava naïf: não trairia os problemas. olhou para a carreira a sua frente e pensou em todas que não viriam por culpa dela. melhor assim. ainda que a tal, veja só, parecia sua mãe. e sua mãe nunca foi um problema: mulher bonita, sua mãe, ele mesmo julgava. mamãe, que mulher, pensava. fosse a outra tal, qual seria seu destino, imaginou. inflaria tanto seu espírito entre aqueles braços; sufocaria todo o corpo com seu próprio volume interno. a outra tal, sem controle dos motivos, fazia inflar o seu espírito, fique sabendo desse horror. o corpo não aguenta, disse assim quando a deixou. escapou por pouco de vestir-se para o próprio funeral, o doido. o doido. e é a mãe quem prepara suas roupas, não aguentaria passar essa gala. agora engravatou seu espírito na primeira mulher que julgava naïf, a menina. listras pra começar a nova vida e seguir numa carreira segura. 

e sabe que deu até nó na altura da garganta. deu até dó.

nothin' underneath that overcoat

tinha a boca treinadinha pra essas horas, um discurso poético juntando pé e bunda, o corpo era o seu arsenal. gostava de estar em ponto de partida, era esse o glutamato do seu instantâneo - e já sentia o ar pelos cabelos, o começo da ventania lá de fora, da distância que os pneus trariam entre a cortina do quarto e o próximo quilômetro. a mão coçava pelo ferro da maçaneta. era só virar de ponta cabeça. era só virar as pernas pro ar. 

entrecomum



violeta. o sangue do cara é assim, uma mistura de vermelho com azul, aquele blues que a gente compartilha nas nossas conversas vez e outra. o vermelho é da alma sensível dele, por isso eu coloco um "a" antes de dizer yan, e isso não tem a ver com sexo. ele é todo câncer. todo masculino. todo pequenininho o ser elástico. a yan, que eu conheci em pernambuco, depois de tantos anos de saber quem é. às vezes ele se leva a sério e fica chatinho, mas eu não saio espalhando isso - só pro chico, que é amigo também. pra ele mesmo eu também digo e sempre me devolve uma risada, mostrando que sabe jogar o ego no lixo, ainda bem. a pose é made in paraguay, o chaparro.

agora ele fez esse quadro pra mim e eu explodi de alegria, fiquei de todas as cores, o branco. disse que é um retrato meu e eu aceito esse cargo, público. pra essa pintura ele fez um texto vibrante - é um polvo das artes, cheio de articulação, o perturbadinho. ele voa na água, no seu amor, líquido. é violeta o sangue dele, fique sabendo mais uma vez.

pra você o meu amigo, com afeto: http://entrecomum.blogspot.com/2011/02/do-outro-lado.html

and what you say?

o jack pegou a road do meu gargalo
do copo pra highway do meu sangue
em um só hit, cowboy,
que é pra gente não voltar atrás,
no more, no more, no more,
no more.

for the times they are a-changin'

1. tem copos de whisky no balcão ao lado do jack;
2. o vidro do banheiro se fez em pedacinhos e furou meu dedo do meio;
3. fui mais rápida que a chuva pra tirar as roupas do varal;
4. os copos têm esponja exclusiva;
5. não sabia que tinha tantos sapatos;
6. escorreguei em espacato na lavanderia, achei que tinha prejudicado minha intimidade;
7. meus cds estão vivos novamente;
8. os amigos, todos presentes;
9. acordo e espreguiço fazendo um barulho que ninguém ouve, achei um ritual sagrado;
10. entro pela porta e sinto cheiro de rejunte, aquele que junta o chão e organiza o caminho.

não há aroma melhor pra dizer desses dias.

hometown glory

meu centro está em votação e não tenho uma tatoo pra desviar o constrangimento da democracia, quanta dúvida. o tempo foi descer as escadas do meu peito pra eu ficar pianinho. saxofoninho. a banda dos caras da escola me dá saudade, aqueles meninos. queria não ter uma cara assinada de paula, queria ser elástica como todo o meu resto. teria deus e era pouco; seus grãos pra eu bancar de mãe. um rabisco eu pretendo de mapa e logo apago as linhas todas, porque gosto do cheiro de borracha quente e o jeito como sujam o tapete - fazem cócegas na organização. queria nada se quisesse isso tudo; o nada corrompe o meu voto, e toda vez, o secreto.

adeus

sabe-se lá qual dedo começou o movimento, tem horas que não se separam, trabalham em família. mas foi efeito instintivo, feito aquilo que não dá pra segurar; tem vezes que a gente só se reconhece muito depois do que fez, e fica por um tempo se olhando estranho - sai na vanguarda do próprio caráter. a palma saúda o ar feito quem toca o mundo todo, enquanto o resto do corpo se retira pra acompanhar o espírito. não há gratidão que pague a conta, não há amor que enfraqueça e mesmo assim a gente parte. partido.

há, porém - e sempre, um espaço pra cada dedo da família. eu sei.

a imunização

o primeiro é o melhor dia do ano. eu ando pela cidade sobre as duas rodas que me equilibram, bem no meio da avenida. a cidade está vazia, o meu coração. por algum motivo, somos recém-nascidos e não há mãe. o amparo, porém, coça o meu umbigo enquanto esquento o eixo do pedal. qual paz não governa, se estamos livres.

bom senso

eu to saindo de casa. inventando a minha, quero dizer. já tenho as coisas todas, falta fechar a papelada pra fazer as malas e dar o fora. a gente é tão arrogante que acha que pode viver sem ninguém. e pode, não pode? eu quero acordar e tomar um suco de laranja fresco, nem se for um dia só, os outros eu fico sem tomar nada,  de preguiça. o espremedor eu ainda não tenho, nem as laranjas, mas elas estão chegando, eu sinto o cheiro delas todas. eu to saindo de casa, mergulhando nessa água escura. a gente pula quando já aprendeu a nadar, você sabe.

blues do milionário

pra quem não vale um centavo
eu troquei o nosso amor
muito barato

agora me chegou a conta
não sei pagar, eu sei, fiz banca
de otário

um trocado, por favor
agora eu sei o seu valor,
pobre diabo

não tire as mãos de mim
deixa que eu acendo
o seu cigarro

baby me dê mais um minuto
do seu passado

um trocado, por favor
agora eu sei o seu valor,
pobre diabo

não era pra te ver sofrer
é que um dia eu vou morrer
de morte antiga

minha intenção era viver
comprar uma passagem
só de ida

mas agora eu fui entender
você é... uma rua sem saída


simplesmente

tem gente que vale a pena e ensina a gente a viver. uma homenagem à mary, minha amiga, sócia querida. a letra da música foi feita pra ela pelo Luca Maribondo, musicada e gravada pelo Geraldo Espíndola e o vídeo fui eu quem fiz...

copy cat

ele abaixava, ela caía o punho
apoiava o joelho, ela segurava o queixo
ele corria, ela girava a cadeira com toda sua rpm
se estendia, ela os dedos - um a um
ele o bastante, ela a suficiente
uma equivalência
aquela dança,sua perseguição.

a hard days's night

foi faltando fôlego, os dentes pediram atenção. gengiva coçando, pulsava a cobertura da língua, o céu que levava por dentro, sem constelações. canino e molares pareciam escapar da boca, atirados cuspe afora, engolidos pela goela; verdade é que amoleciam suas raízes. se a mandíbula não apertasse arcada contra arcada, sobraria algum. então vinha a vontade de abrir a boca feito quem volta de um mergulho, foi faltando fôlego que o fiz; brilharam os ossos rumo afora, na contraluz do sol que fervia mais a circulação, enquanto as pernas giravam o pedal, seu círculo vicioso.

para os pulmões, os dentes não fizeram falta. sorria no sinal vermelho; o siso apontava seu nascimento. quanto ar ainda tinha pra chegar ao terminal? foi faltando fôlego que eu vinha. ao final.

terceira margem

recolho a linha e ponho a isca - o meu molinete é do tipo albatroz armada 3000. lanço o anzol e chumbo, esse duo violento que te persegue no fundo, a sua morada. e eu na areia da praia, de pé sujo vendo a água passar, não arrisco chegar na margem, não sou mais sereia - eu não nado mais. e fico te buscando onde não vejo, passo a noite com a fogueira armada te esperando pra jantar.

que você não fisgue; que eu não tenha nunca que puxar.